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A arte de praticar o simples

Sinto um honesto e saudável escárnio pelas pessoas. Alguns me chamam de intolerante, mas a verdade é que esse motejo, assim posto, direciona meu bom viver desde que me entendo por gente (com exceção do verão de 86). Vejo-me como um observador do mundo: Ah, as bengalas em diagonal, quanto mistério. E as penas de pavão, então? Noz moscada, puxa! Tantas facetas, e ainda dizem que a melhor coisa que inventaram foi o abobrão em conserva… Bah! Não sabem o que dizem esses pudicos. Se pensar é um fazer, que seja, evidentemente, ontem e de preferência antes da novela das seis. Enternecimento de minha parte? Não! Você não entende… Quero o meu seguro Peter-Pan, quero o que me tomaram: os energúmenos, os inomináveis, os energéticos, jamé! Não importa mais se a pústula secou e caiu, nem se Frida praticava coprolagnia sem escovar o dente, inclusive. Quisera eu entender de biologia, eles veriam uma coisa, curaria minha ardência na velocidade de um fractal de balalaicas se desfazendo em solos diminutos sustenidos em dó com nona aumentada. Mas não, tinha que ser agora, isso! Compreendo, estava diante de minha próstata o tempo todo, ali, para quem quisesse ver.

Que sono, acho que tomei zolpidem por engano de novo. Ai, ai, cadê essa minâncora?

A bicicleta de Dante

Lembro-me que este hábito começou juntamente com a gravidez de uma das filhas da vizinha e a emoldura de algo semelhante a um escroto acima do rádio na sala. Papai dizia que o rebento era oriundo de uma motoneta , destas de vanguarda, descaminhadas. Ou do boto. Já mamãe não.

Não comentei do hábito? Que cabeça a minha! Deixa-me reler que acho que esqueci de novo. Ah, tá! Meu pai tinha o hábito de usar crachás com nomes que não era dele. Insistia que por essa experiência conseguia viver o desejo de ter vários nomes podendo assumi-los ou meramente causar maior impacto desmentindo que já chegava lhe tratava pelo nome:

- Não, não! Isto é só a marca do crachá.

- A marca do crachá é Otaviano Menegal?

Muitas vezes surgia uma nova voz na conversa:

- Alguém me chamou?

Geralmente era mamãe que tinha também este hábito alimentado por papai de se apresentar com nomes absolutamente masculinos.

- Perdão, qual é o nome mesmo da senhora?

- Roberval Bandeira!

Recordo-me de antes do cinco anos entender os significados essenciais das palavras constrangimento e labiada, os quais carrego até hoje. Ainda piorava quando meus pais explicavam que os testículos da minha mãe caíram antes do cordão umbilical. Por essas e outras mazelas, tornou-se corriqueiro os meninos da rua gritarem uníssono ante a minha presença:

- Sua mãe tem pinto! Sua mãe tem pinto!

Sendo honesto, ainda hoje me pego em meio a “serás?”. Assim que eu pude superar a minha infância, comecei a dar valor ao que meus pais tinha e que nunca cheguei a ter. Eles eram como um casal de ermitões. Tinham o seu mundo próprio e seu jeito de se divertir as custas do absurdo . E de sofrer por  absurdos também.

Minha mãe achava que a vizinha tinha sido emprenhada por uma bicicleta Barra Circular Monark. Não era raro ouvi-la afirmando – Há algo de satânico em um círculo em vão – ou – Essa é a auréola do diabo.Ouvia conversas sobre determinadas tribos do ocidente, sacrificavam anéis de Saturno para evocarem deuses pagãos vascaínos. Falavam em histórias já era antiga quando o jogo da velha apenas uma mocinha era.

Quem não gostava nada desta história era vovô. Um homem muito alto, muito branco e o que tinha de careca sobrava-lhe em calvície. Vovô possuía uma Barra Circular e afirmava que não havia nada de vão naquele desenho. Que era assim por que fora feito pensando nas lavadeiras do Sudão que podiam carregá-las em suas cabeças enquanto tivessem pedalando em suas trouxas de roupas. A lógica do Vovô era sempre irrefutável…

Natasha, cutelo… presto-le!

Por que eu escrevo aqui? Pensei que essa questão pudesse ser levantada em algum momento e resolvi responder antes que alguém me perturbe perguntando (estou de mal – humor. Acordei com ardência). Sou biologicamente imparcial. Não que eu queira, mas esta condição fora me dada como um polidactismo. Periodicamente sou “resetado”, como diz a minha neta. Um dia, três, cinco, dois… não há prazo constante. Não sei como isso funciona e me interesso pouco para ser incrivelmente honesto. Lembro-me da minha infância como se tivesse vivido nela em instantes atrás mas muitas vezes o ontem é um enigma insolúvel.

sta_senil

Minha opinião sobre assuntos isolados não são contaminados por situações recentemente pregressas. Todavia, é desnecessário dizer que isso encurtaria minha vida sensorialmente, fazendo dez anos passar como um suspiro. Uma solução confortável foi a criação deste blog onde eu colocaria minhas memórias, minhas opiniões, meus orgulhos e onde eu pudesse rememorar fatos do meu dia a dia e continuar sentir a gentil felação do tempo. O petróleo é nosso! O Orkut não…

Um praça, uma igreja, uma rua…

- Eu fui pracinha. A maioria das pessoas que me conhecem ri quando digo isso. Custa a imaginar que eu, uma figura pacifista (fora aquele verão de 86) poderia pegar uma arma (fora o verão de 86) e alvejar outros seres vivos (fora o verão de 86). Era apenas um menino á época e sabia muito bem o que queria. Sentia-me como o super-herói, como o Regnarost (o meu favorito), menti o meu nome e a minha idade e adentrei a essa aventura. Até aquele momento eu não entendia o verdadeiro valor de meias e cuecas, mas viria a entender brevemente.

Desde o meu retorno da Europa tento sempre manter a elegância trajando sempre meias elásticas medicinais (moda eterna em Tirana) por cima das bainhas das calças e justíssimas cuecas Sarajevo. Tudo que fiz período foi buscando um aplaudir de nuca, por isso não posso nem considerar-me um herói, mas não recrimino quem o faça. Não é uma história que me delicie em contar, mas acredito que o momento é oportuno que eu divague a respeito, dado o advento da reforma da língua portuguesa. Eu que mal me adaptei a reforma de 1910 sendo que nem era nascido.

Conto depois essa história. A ardência está acabando comigo. Acho que vou a pharmácia comprar Minâncora.

Coisas da Frida – Parte I

- Fora com os guerreiros Cossacos! Clamava ela com uma voz estridentemente sensual. Esta “ela” a qual me refiro foi meu primeiro amor. Mas não esse amor que todo mundo gargareja e cospe em cada pagode mal escrito e mal tocado (redundei), mas aquele sentimento que do qual criam-se os devotos, não os escravos.

Era demente, maltrapilha e tinha tantos dentes quanto tinha braços (e eu só consegui contar um), mas amei assim que a ouvi. Não deveria passar dos 30 anos, tinha olhos amendoados grandes e feições tão encantadoras quanto sofridas. Suas sujas melenas se assemelhavam a uma orgia de quiabos em uma cama de xaxim e exalava um odor que provocava toda sorte de sensações em um garoto no auge dos meus 14 anos. Ah, naquele tempo não era assim como hoje. As descobertas do sexo vinham na mesma toada que os instintos. Hoje você encontra técnicas de felação em folhetos bancários. Quando púbere um pé descoberto era enredo das mais diversas fantasias, um joelho descoberto havia me causado anteriormente mais de um mês de poluções.

Com vários jornais na mão e uma sensação que deixa-me febril, não conseguia desgrudar os olhos daquela eloqüente amazona.  Dizia que seu nome era Frida e que seu direito de sucessão havia sido usurpado pelos Iugoslavos. Nunca soube o que ela queria suceder, ou como os cossacos foram para na Iugoslávia, mas isso não prejudicou o nosso romance. No meio de um inflamado discurso ela encontrou sua pausa em meus olhos e naquele momento eu senti que ela caiu de três por mim. Ela andou na minha direção, aproximou o seu rosto do meu, tomou-me a mão e sussurrou: – Você não tem cara de bolchevique!

Dez minutos depois eu havia me tornado homem e voltava para casa sem dinheiro, sem jornais, apenas com um sorriso e o pensamento “Eu preciso aprender Letão”.