Não admitir que a opulenta culinária de boteco às vezes pode equiparar-se a uma receita Cordon Bleu seria, no mínimo, um impropério da minha parte. É bem verdade que meus três dígitos de peso, que não foram adquiridos com saladas, frutas ou outro alimento maléfico, permitem-me permear nesses verdadeiros antros de perversão gastronômica à procura de singularidades.
Dia desses, estava no Bar do Futrica escolhendo a próxima aventura exótica num cardápio que mais parecia um papel mata-moscas de tão gorduroso e sujo (alguma coisa se mexeu perto do preço da moela frita, mas preferi não olhar), quando ouço um rapaz ao meu lado gritar: “Garção, seu pedir essa Isca de Frango vem o quê? Milho?”. Mui amável o garçom respondeu: “É.. a sua ‘veínha’ sempre pede. Dá gosto!”.
Entre uma bravata e outra trocada na pequena discussão entre o ébrio freguês e o biltre garçom, que durou pouca coisa, (um quarto de hora no máximo) escolhi um prato que me pareceu diferente e desafiador: torta chilena. Repleta de indecifráveis ingredientes aquela iguaria me foi entregue numa azimovesca travessa de alumínio, digna dos mais toscos filmes de ficção científica da década de 40.
Degluti o primeiro pedaço no mesmo instante que o estarrecido freguês descobria que Isca de Frango não era nada mais senão frango. Enquanto ele retomava a contenda com o garçom me dei conta que havia meio percevejo no meu prato (acho que, pelo menos, devia ser chileno), o que me fez engasgar disparando de minha traqueia um projétil certeiro na Isca de Frango alheia.
“A-há! Milho!”, disparou o freguês com olhar triunfante.
Saindo de lá fiquei elucubrando se o inseto era o mesmo errante ser do cardápio, o que estava perto do preço da moela frita. Da próxima vez juro que levo um flit.