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Cotidiota II

Não admitir que a opulenta culinária de boteco às vezes pode equiparar-se a uma receita Cordon Bleu seria, no mínimo, um impropério da minha parte. É bem verdade que meus três dígitos de peso, que não foram adquiridos com saladas, frutas ou outro alimento maléfico, permitem-me permear nesses verdadeiros antros de perversão gastronômica à procura de singularidades.

Dia desses, estava no Bar do Futrica escolhendo a próxima aventura exótica num cardápio que mais parecia um papel mata-moscas de tão gorduroso e sujo (alguma coisa se mexeu perto do preço da moela frita, mas preferi não olhar), quando ouço um rapaz ao meu lado gritar: “Garção, seu pedir essa Isca de Frango vem o quê? Milho?”. Mui amável o garçom respondeu: “É.. a sua ‘veínha’ sempre pede. Dá gosto!”.

Entre uma bravata e outra trocada na pequena discussão entre o ébrio freguês e o biltre garçom, que durou pouca coisa, (um quarto de hora no máximo) escolhi um prato que me pareceu diferente e desafiador: torta chilena. Repleta de indecifráveis ingredientes aquela iguaria me foi entregue numa azimovesca travessa de alumínio, digna dos mais toscos filmes de ficção científica da década de 40.

Degluti o primeiro pedaço no mesmo instante que o estarrecido freguês descobria que Isca de Frango não era nada mais senão frango. Enquanto ele retomava a contenda com o garçom me dei conta que havia meio percevejo no meu prato (acho que, pelo menos, devia ser chileno), o que me fez engasgar disparando de minha traqueia um projétil certeiro na Isca de Frango alheia.

“A-há! Milho!”, disparou o freguês com olhar triunfante.

Saindo de lá fiquei elucubrando se o inseto era o mesmo errante ser do cardápio, o que estava perto do preço da moela frita. Da próxima vez juro que levo um flit.

Cotidiota I

Saí para comprar cigarros hoje de manhã. Cigarros! Eu não fumo mais desde a década de sessenta! Meu médico falou a época que o tabagismos era a causa da minha ardência e desde então nunca mais acendi um cilindro que fosse. Fatos estes me fugiram temporariamente dos neurônios por um par de horas, assim como o caminho da padaria mais próxima. Alerta aos meus amigos contemporâneos: Cuidado com a passagem livre ao idoso! Eles querem a nossa destruição! Somos apenas ônus ao Estado na visão deles! O Getúlio não está mais lá! O passe livre a terceira idade é uma faca de dois gumes!  A valia na passagem não está antes da roleta, mas depois, quando você não sabe mais onde está ou como se chega em casa… E em uma situação como esta quem lembra do nome de alguém ou do próprio?  Sorte que a minha filha conhece meus descaminhos, tem boas vistas e um carro melhor ainda. Me resgatou justamente quando estava em pleno telecatch com um indivíduo armado com um andador. Aquilo é uma arma branca nas mãos de um irresponsável hábil. Ele ainda ameaçou-me com aquele saquinho de plástico! Se eu tivesse medo de fezes não teria me candidato a síndico naquele agosto de 74. Seria um dia perfeito se ao seu fim (a uma ou duas horas atrás) minha filha me colocasse no quarto e eu gentilmente perguntasse: -Você se lembrou de comprar meus cigarros, minha filha? Com olhos rançosos bradou: “– Merda papai! Merda!” Olha que desaforo. Agora vou ficar aqui na vontade. Amanhã vou comprar para ela um remédio para memória e uma latinha de Minâncora. Santo remédio pra ardência.