Lembro-me que este hábito começou juntamente com a gravidez de uma das filhas da vizinha e a emoldura de algo semelhante a um escroto acima do rádio na sala. Papai dizia que o rebento era oriundo de uma motoneta , destas de vanguarda, descaminhadas. Ou do boto. Já mamãe não.
Não comentei do hábito? Que cabeça a minha! Deixa-me reler que acho que esqueci de novo. Ah, tá! Meu pai tinha o hábito de usar crachás com nomes que não era dele. Insistia que por essa experiência conseguia viver o desejo de ter vários nomes podendo assumi-los ou meramente causar maior impacto desmentindo que já chegava lhe tratava pelo nome:
- Não, não! Isto é só a marca do crachá.
- A marca do crachá é Otaviano Menegal?
Muitas vezes surgia uma nova voz na conversa:
- Alguém me chamou?
Geralmente era mamãe que tinha também este hábito alimentado por papai de se apresentar com nomes absolutamente masculinos.
- Perdão, qual é o nome mesmo da senhora?
- Roberval Bandeira!
Recordo-me de antes do cinco anos entender os significados essenciais das palavras constrangimento e labiada, os quais carrego até hoje. Ainda piorava quando meus pais explicavam que os testículos da minha mãe caíram antes do cordão umbilical. Por essas e outras mazelas, tornou-se corriqueiro os meninos da rua gritarem uníssono ante a minha presença:
- Sua mãe tem pinto! Sua mãe tem pinto!
Sendo honesto, ainda hoje me pego em meio a “serás?”. Assim que eu pude superar a minha infância, comecei a dar valor ao que meus pais tinha e que nunca cheguei a ter. Eles eram como um casal de ermitões. Tinham o seu mundo próprio e seu jeito de se divertir as custas do absurdo . E de sofrer por absurdos também.

Minha mãe achava que a vizinha tinha sido emprenhada por uma bicicleta Barra Circular Monark. Não era raro ouvi-la afirmando – Há algo de satânico em um círculo em vão – ou – Essa é a auréola do diabo.Ouvia conversas sobre determinadas tribos do ocidente, sacrificavam anéis de Saturno para evocarem deuses pagãos vascaínos. Falavam em histórias já era antiga quando o jogo da velha apenas uma mocinha era.
Quem não gostava nada desta história era vovô. Um homem muito alto, muito branco e o que tinha de careca sobrava-lhe em calvície. Vovô possuía uma Barra Circular e afirmava que não havia nada de vão naquele desenho. Que era assim por que fora feito pensando nas lavadeiras do Sudão que podiam carregá-las em suas cabeças enquanto tivessem pedalando em suas trouxas de roupas. A lógica do Vovô era sempre irrefutável…