“- Mas duas cordas com a mesma afinação?”, perguntei indignado. “- Sim, Anedoff!”, Alexander me chamava assim todas as vezes que impostava sua voz na tentativa de se mostrar austero, tinha um medo irracional de que confundissem sua amabilidade com concupiscência. Papai colocara a condição de aprender balalaica para que eu pudesse paralelamente tocar bateria. Fora um preço alto… Não pela dedicação do professor, era um privilégio aprender com Alexander Kurzoff, mas as três cordas (com dois tons) intimidam, a princípio, até um músico microtonal experiente (o que não era o meu caso, para piorar).
Hoje compreendo o valor daquelas aulas, não era música que Alexander ensinava ali, inspirado pelos filósofos russos, havia mais do que progressões de quinta e semicolcheias naquelas partituras: respostas residiam ao final de cada compasso, notas revelavam mais verdades do que minha mente seria capaz de absorver. E quando uma inquietação tomava meus pensamentos era sua voz austera que irrompia a turbulência:
