Arquivo da categoria: Melófilo em fá sustenido

Dal Segno

“- Mas duas cordas com a mesma afinação?”, perguntei indignado. “- Sim, Anedoff!”, Alexander me chamava assim todas as vezes que impostava sua voz na tentativa de se mostrar austero, tinha um medo irracional de que confundissem sua amabilidade com concupiscência. Papai colocara a condição de aprender balalaica para que eu pudesse paralelamente tocar bateria. Fora um preço alto… Não pela dedicação do professor, era um privilégio aprender com Alexander Kurzoff, mas as três cordas (com dois tons) intimidam, a princípio, até um músico microtonal experiente (o que não era o meu caso, para piorar).

Hoje compreendo o valor daquelas aulas, não era música que Alexander ensinava ali, inspirado pelos filósofos russos, havia mais do que progressões de quinta e semicolcheias naquelas partituras: respostas residiam ao final de cada compasso, notas revelavam mais verdades do que minha mente seria capaz de absorver. E quando uma inquietação tomava meus pensamentos era sua voz austera que irrompia a turbulência:

“- Anedoff, recomece.”
dalSegno

Os Incólumes

O período de tentativas com a balalaica foi curto, meus 12 anos de idade na época não permitiram crer que tocar um instrumento com três cordas sendo duas com a mesma afinação fosse um modelo de rebeldia digno.

Papai tocava celesta (um instrumento do grupo dos metalofones) no Theatro Municipal de São Paulo, fizera a estréia como segundo celesteiro dias antes de apresentar-me o “cavaquinho russo” esbaforido: “- O próprio Ministro Getúlio cumprimentou aquele Kurzoff, miserável, entrou outro dia para a orquestra e já recebeu a benção do Vargas! Do Vargas!”. Dizem que a complicada progressão de sétimas aumentada feita em sua balalaica barítono deixou o final do balé Sansão e Dalila estonteante de tal forma que o público aplaudiu de pé por 9 minutos – feito só repetido antes no balé Dom Quixote, quando Sancho Pança acertou acidentalmente o pomposo bojo de Quixote durante um assemblé dessous, obrigando o bailarino a improvisar um tombée enquanto as lágrimas escorriam em abundância de seus olhos.

Do escasso álbum de fotografias de papai consegui recuperar a foto enviada por Alexander Kurzoff da sua orquestra de balalaica criada em 1932 após o término da temporada no Theatro Municipal, onde ostenta (com certo esforço e invejável equilíbrio) o seu instrumento barítono de forma austera.

Balalaika

“- Filho!”, dizia papai, “Esse instrumento é o futuro! O futuro!”. Entristeceu-me desaponta-lo quando pedi que me comprasse uma bateria, o meu primeiro instrumento de fato. Os Incólumes finalmente poderiam pensar na sua primeira apresentação, mas essa é uma história para outro post.