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Bondosamente senil

Decrépito tempo que urge e nos traz novas dimensões. Bravo!

Uma das mais grandiosas vantagens de não tomar a a soberba como guia da própria vida é o usufruto da admiração insurgente dos talentos humanos. Como brasileiro nato e árduo patriota, tenho a obrigação de dizer que não há lugar neste planeta em que as pessoas sejam tão igualmente talentosas como no resto do mundo que neste “maravilhento” Brasil. E que me perdoem os radicais e os prepúcios, mas vou falar de personagens brilhantes nascidos neste lado do mapa.

Ninguém chega onde está à toa! Pelo menos alguém teve que labutar muito para que ela alcançasse o notório sucesso ou fracasso. Não vou cuspir nem “fagocitar” na carreira duramente obrada de nossos maiores exemplos, mas até mesmo as pilhas que duram sete vezes mais – até mesmo as de Cain que duravam (pasmem) setenta vezes sete – um dia acabam. E este fim não é a morte, mas algo muito mais devastador. O momento em que a lâmpada não brilha, mas cintila, as engrenagens não giram com virilidade, mas com brandura, como Harriet! Para leigos, Harriet era a tartaruga de 175 anos que o próprio Charles Darwin trouxe das ilhas Galápagos cuja morte só ocorreu no ano de 2006. De olhar para o animal dava para ver que já estava rodando na reserva há mais de cem anos. Se a ela fosse dado o dom da fala para uma frase apenas, ela sem dúvida diria “mate-me pelo amor de Deus”!

Chegando nesse momento onde o dois únicos pedidos de um ser humano são que a consciência se vá antes da razão e uma com “floc-gel” a cada seis horas, não há mais volta ou tratamento. Para não falar que tudo é tristeza, há diversas vantagens desse estado quando você não é a pessoa acometida, ou diretamente ligada aos bens da vítima. Uma delas é o admirável mundo dos bondosamente senis. Torram suas fortunas em relógios sem ponteiros, esquecem que comunicação por gestos é para ser mais discreta que a verbal, chamam o Cafú de Ademar da Guia, chamam o Ademar da Guia de menino, dentre outras peripécias dignas de um Dom Quixote com artrose.

Há com certeza indivíduos que acatarão esta retórica como crítica sem aforro a velhice mas estes não compadecem da tragédia de Barbosa. Sendo este um personagem do ator Ney Latorraca, era vítima do descaso ao idoso. Um homem de idade inegavelmente avançada, cuja comunicação se reduzia a repetições das últimas palavras dos seus interlocutores. Todavia a desatenção era tão absurda, que Barbosa seguia irresponsavelmente posto em cargos presidente de grandes empresas, chairman de programas de entrevista (Barbosa onze e meia), arrimo de família, sendo até preso, julgado e condenado sem que alguém bradasse a sua senilidade ao mundo.

Fechar os olhos para a o mundo senil, ou banalizá-lo a ponto de gerar piedade é algo hipócrita. Esta é uma fase da vida dos bem aventurados são agraciados por viver. Há de sensibilizar de forma negativa por uma criança em seu doce desconhecimento do mundo? O senil é a essência disso levando a palavra desconhecer no mesmo sentido de desfazer. Quem dá o tom de tragédia é o tolo que lamenta fraudas, repetições e banalização do comportamento social. Tão simples e belos como nossos heróis que são tão geniais e notáveis no alvorecer quanto o são no ocaso… mesmo que não consigam mais nem se reconhecer no espelho.

Como diria o saudoso Anedônico Baptista: Maldito seja o tempo, bendito seja o shimeji.