Arquivo da categoria: Ardências familiares

Um natal, um adeus…

Senhores e senhoras, testemunhas deste meu relato testamentado que meu neto chama de “ploque”:

Venho aqui em lágrimas, pois constato que meu fim é próximo e certo. O caminho foi longo e com certeza o meu quarto dedo do pé esquerdo fez falta nesta caminhada (conte do “dedão” para o “mindinho”). Descobri essa manhã que o Valdir não brincava, era Césio! Estou com uma mancha esverdeada disforme em meu braço que eu sei que é doença ruim! Já ouvi falar que isso acontece muito. Geralmente em dálmatas, mas humanos e bauxitas também podem ser afetadas.

Minha filha está inconsolável! Como dói o fim, irmãos de letra. Sabereis um dia. Ela agiu com falso desdenho quando lhe mostrei. Que dúvida, não queria acreditar. Quem gostaria? Vai perder o único homem que fez algo que preste a ela nessa vida. Ah, minha pensão! Ah, loto! Sua face mentia altivez e quando perguntei onde ela gostaria de passar o natal este ano, ela levantou-se em fúria com a ingrata vida e disse que queria passar na cidade onde eu nasci… claro que disse isso com raiva, usando palavras que poderia ofender em situações diferentes, mas não agora, não no fim, no ocaso…

Saiu aos prantos, dizia-se exausta. A perda cansa. Talvez pense que não dure até lá. Maldito tom ranho em meu antebraço exposto. Minâncora… o que tenho a perder. Acho que meu quadril estalou. Que merda!

Nunca pergunte sobre o natal se muitos dele tiver

Idoso não tem vez nessa porcaria de país. Desculpe-me senhor leitor, mas é de lascar não ter mais controle da bexiga ou das pregas! Sei que estou rude e tendo a lhe ofender desnecessariamente. E a culpa não é vossa! Estou ciente disso em meio ao meu descontrole. Veja bem, quem me lê, veja bem! Quantas décadas são necessárias para o respeito? Dez? Feliz de poder viver mais um ano em família, pensei na data, mesmo que fictícia, mesmo que comercial, do nascimento de menino, o Natal, ou Heimatstadt como a Frida dizia. Perguntei gentilmente ao meu rebento, fruto ingrato da minha fraca carne, onde ela estava planejando passá-lo, e sou respondido com berros:

- Oito hoje! Oito!!! “Peraí”!

E sabe o que ela fez, caro leitor. Escreveu no meu braço com uma esferográfica verde satânica e saiu dizendo:

- Posso preparar o seu café em paz agora? Merda, papai! Merda!!

Indignidade toda. E pra que vamos para aquela bosta de cidade? Se bem que eu gasto pouco com as… você sabe, não é, gentil leitor. Ser idoso é sofrer em dose megalónoma!

Este ano o natal tende a ser capixaba!

Hoje o dia amanheceu deliciosamente nublado e um estalo na minha a bacia remeteu-me ao Natal, veja só! Perguntei a minha filha quais os planos para este ano. Com a impaciência corriqueira herdada de sua mãe, respondeu-me quase rispidamente que vamos a Guarapari este ano. Para ser franco, de tão pouco ouvir falar no estado do Espírito Santo achei que o aquecimento global já tinha dado cabo daquela região. Nada contra o nosso “Estado Alzheimer “, como dizia o nosso saudoso Roberto Roger… Minha filha acaba de me falar que Roberto Roger não morreu por isso não pode ser saudoso. Tenho o terrível hábito de escrever falando. Se não o faço doi-me o testículo. Não me lembro qual.

Mas eu gosto de lá. Suas prostitutas têm o melhor custo benefício do Sudeste. São funestíssimas de tão feias, mas são relativamente baratas. Fora que os dentes são aparatos cem por cento desnecessários ao sexo e correndo o risco de parecer puritano, julgo até como dote negativo ao rijo ato. Isso faz da falena capixaba em média ser a mais naturalmente apta ao meretrício praticamente enlatado.

Não é que deu saudade? Ah, se aquele espetinho de camarão não me der piriri… Iriri?

Natal de 2001

Fui acometido de uma grande curiosidade sobre onde passaremos nosso natal este ano. Quando eu digo nosso, falo meu e de minha família, claro. E quando digo acometido, quero dizer exatamente o que quer dizer o verbo acometer. Não poderia ser diferente. Ou até poderia ser se estivéssemos falando em esperanto. Lembrem-se disto: Qualquer um pode argumentar em língua que ninguém saiba, tudo pode ser dito mesmo que não signifique bulhufas!

Minha filha com relutância revelou o nosso plano familiar. Devemos passar o natal na cidade de Guarapari, no Espírito Santo, coisa que não faço desde 1986. Estou empolgado e assegurei-a que desta vez estou calmo. E que não tentarei nada, nem farei algo mais que pegar a melhor das micoses nas putrefatas areias da praia do morro, ou uma difteria intensa em um espetinho de camarão qualquer. Já se passaram quase vinte anos.

Ah nádegas…