Arquivo da categoria: Adipositivo

Amenidades sobre obesidades nada amenas

“Es esmu atpakaļ” diz o menino

Quem simplesmente tangencia a minha realidade não sabe o quão incrivelmente fácil é esquecer vestes dos fundilhos quando a vista da popa própria lhe trás somente os pêlos em um vasto ventre. É interessante o quanto o tempo nos brinda com novas percepções, com novos sentidos. Fala-se muito das perdas, mas é fato que a idade nos trás novos sentidos, por isso temos que abrir mão dos outros.

Levantei-me da cama como se passasse meses. Ao chegar à sala, um estalido me trás um odor ocre que me remete a fruta do conde e ninho de bacurau. Minha infância perdida… Visite-me antes que novamente te perca – penso eu quase em súplicas. Um calor sorrateiro toma conta de minhas pernas e me sinto capaz de deslizar pelo mundo em alta velocidade! Minha filha me olha com espanto. Não posso recriminá-la. Quem não se espantaria em ver um pai menino. Vejo a minha silhueta ao chão, pendulando faceira como se cada ponto de mim escolhesse uma rota ao júbilo. Com se brindado com o primeiro beijo, senti gélido o buril, como se abraçasse o mundo em minha cintura com a força de um titã. Vivo! Vivo!!!

A chama infante corre em cada veia minha! Ao olhares de meu choramingado neto, sigo pelas salas pelos móveis, pelo ritmo de meus calcanhares a sapatear no piso amadeirado liso. Minha filha perseguia-me como se fosse um jovem varão á beira da calçada em trânsito intenso de galgos! Aos saltos nos interligados cômodos de minha casa, seguia ao som de estalidos e gemidos murmurosos que vinha de todos os lados… Todavia, em ingrato momento que me veio aos olhos como aquele verão de 86 em Amesterdão, meu jovem netinho surge no meu caminho com a surpresa de quem pare a si mesmo, restando-me apenas aplicar algo que fundiria um pas de cheval a um rabo-de-arraia. Aterrei em uma cadeira Luiz XV que virou algo menos que um tamborete Joãozinho XXX com trejeitos João-do-pulo.

O meu jovem interior evadiu de mim deixando uma ou duas estrias a mais e pouco a pouco a voz de minha filha fica mais alta e mais ininteligível. Paulatinamente, ao olhar o menino recém saltado, notei um topete que lhe caia ao olho entre as lágrimas abundantes. Tomou conta de mim uma dor enorme por não perceber que meus filhos e netos cresceram e o quão delirante estou, pois juraria que vi o topete da criança escorrer. O chão parecia um shimeji de tão quentinho…

Enxúndia ancha

(redondilha maior, bem maior)

Peperone no alho
Provolone em frangalhos
Presunto com azeitonas

Mate-me sem piedade
Antes que alguém me trague
Aquele atum maldito

Cotidiota II

Não admitir que a opulenta culinária de boteco às vezes pode equiparar-se a uma receita Cordon Bleu seria, no mínimo, um impropério da minha parte. É bem verdade que meus três dígitos de peso, que não foram adquiridos com saladas, frutas ou outro alimento maléfico, permitem-me permear nesses verdadeiros antros de perversão gastronômica à procura de singularidades.

Dia desses, estava no Bar do Futrica escolhendo a próxima aventura exótica num cardápio que mais parecia um papel mata-moscas de tão gorduroso e sujo (alguma coisa se mexeu perto do preço da moela frita, mas preferi não olhar), quando ouço um rapaz ao meu lado gritar: “Garção, seu pedir essa Isca de Frango vem o quê? Milho?”. Mui amável o garçom respondeu: “É.. a sua ‘veínha’ sempre pede. Dá gosto!”.

Entre uma bravata e outra trocada na pequena discussão entre o ébrio freguês e o biltre garçom, que durou pouca coisa, (um quarto de hora no máximo) escolhi um prato que me pareceu diferente e desafiador: torta chilena. Repleta de indecifráveis ingredientes aquela iguaria me foi entregue numa azimovesca travessa de alumínio, digna dos mais toscos filmes de ficção científica da década de 40.

Degluti o primeiro pedaço no mesmo instante que o estarrecido freguês descobria que Isca de Frango não era nada mais senão frango. Enquanto ele retomava a contenda com o garçom me dei conta que havia meio percevejo no meu prato (acho que, pelo menos, devia ser chileno), o que me fez engasgar disparando de minha traqueia um projétil certeiro na Isca de Frango alheia.

“A-há! Milho!”, disparou o freguês com olhar triunfante.

Saindo de lá fiquei elucubrando se o inseto era o mesmo errante ser do cardápio, o que estava perto do preço da moela frita. Da próxima vez juro que levo um flit.

Obesa idade

Nem sempre fui gordo. Claro, não houve um dia em minha vida que pudesse ser confundido com um faquir, mas posso dizer que já me chamaram de “forte”. E se idade não é aquela que se tem, mas a que se sente, peso não o que se mede na balança, mas o que carrega na alma. Então mesmo sob amargos protestos dos meus joelhos digo que sou uma pessoa leve. Pode espantar o leitor que eu possa estar falando com suavidade sobre um assunto tão pesado, mas todos os portadores de necessidades espaciais (calão politicamente correto) vão concordar uníssono que não há melhor fartura que a auto fartura.

Como muitas vezes a gravidade terrestre e o sistema métrico não concordam com o meu esguio ânimo vejo-me a evitar certas situações para me adequar as imperfeições do mundo, como andar sobre grades, ficar sobre lençóis freáticos, entrar no elevador com anões e coisas da mesma magnificência. É fato que nem tudo são flores. Há aqueles que terão a pachorra de depreciar o expansivo jeito de ser apontando injúrias como silhueta acutângula, seios fartados e membro “clitoridiado”, mas isso são minudências que são desapercebidas por 62,8% de toda a população humana e 2,7% apenas de anfíbios. Tendo estes como pináculos da objeção, sobra-nos soberanos ante a inércia e cientes do nosso melhor quarto. Já disse o grande poeta que não há mistério e beleza que, abaixo da linha de cintura, valha a perda de uma boa parmegiana. E não deixemos de falar da picanha que só é boa quando deixa as artéria apitando quando sangue passa. É o ser gordo de dentro para fora e de fora para dentro.

Assim que eu conseguir me lembrar de alguma história sobre gordura, venho correndo para cá contar. Bem, correndo não vai dar senão o meu joelho estoura como um tiro de “doze” e já prometi a mim mesmo não voltar ao andador esse semestre (vide metametas). Alguém sabe uma boa receita para tirar gordura de frango do teclado? Vou pegar a Minâncora…